Ensinar o Brasil a olhar para seus rios: um país não cuida do que não enxerga

Na escola, o aluno aprende onde o rio nasce e onde deságua, o nome das bacias, o traçado das águas no mapa. Aprende quase tudo sobre o rio — menos a cuidar dele.


Desde cedo, a escola brasileira ensina o rio. A criança decora onde ele nasce, por onde corre e onde encontra o mar; aprende o nome das grandes bacias, colore o mapa das águas, responde à prova e passa de ano. É um conhecimento bonito e necessário. Mas há uma lacuna silenciosa no meio dele: ensinamos a geografia do rio, e não a sua vida; ensinamos onde ele está, e não como se cuida dele. O aluno termina os estudos sabendo desenhar o rio de olhos fechados, sem nunca ter aprendido a enxergá-lo como algo que lhe pertence — e que também depende dele.


E aí está a raiz de um descuido antigo: ninguém protege aquilo que só aprendeu a ver de longe, como um traço no papel. A gente cuida do que sente como seu, do que passa diante dos olhos todos os dias, do que a vida em comum vigia. Foi exatamente assim que aprendemos a cuidar das estradas — e é na comparação com elas que se enxerga o que falta ao rio.


Repare numa estrada. Suas margens são vigiadas, limpas, cobradas, e a razão é simples: por ela passa a sociedade inteira. O médico a caminho do plantão, o engenheiro, o repórter, a família em viagem de férias — todos veem o mesmo acostamento. Quando aparece um saco de lixo, alguém reclama, alguém fotografa, alguém cobra. A estrada tem plateia, e o que tem plateia acaba sendo cuidado.
Com o rio, dá-se o contrário. Por ele passam os tripulantes, os ribeirinhos, os barqueiros — brasileiros cuja voz, quando há uma queixa, ecoa muito menos longe; gente que vive distante dos olhos e dos ouvidos do país. O rio atravessa o ponto cego da nação. E o que não é visto não é cobrado; o que não é cobrado, aos poucos, deixa de ser cuidado. Um país não cuida do que não enxerga.


Basta olhar para fora para medir o tamanho da diferença. Nas cidades que aprenderam a valorizar suas águas, o melhor de tudo fica nas margens do rio: as casas mais bonitas, os cafés, os museus, os calçadões, o cartão-postal que representa a cidade. Como todos passam ali, todos cuidam. O rio é a sala de visitas — a parte da casa que se mostra com orgulho.


No Brasil, o rio ficou do lado que não se mostra. Boa parte dos nossos rios virou o quintal dos fundos — o lugar para onde escorre o esgoto, onde se joga o que sobra, aquilo a que a cidade dá as costas. E não foi por maldade: foi por invisibilidade. Como deixou de ser um lugar por onde a sociedade passa e olha, o rio virou o destino natural de tudo o que se descarta, sem que ninguém perceba.


É por isso que ensinar o Brasil a olhar para seus rios não é acrescentar mais um capítulo à aula de geografia. É mudar o rio de lugar dentro de nós: tirá-lo do território das coisas que se aprende e passá-lo para o das coisas de que se cuida. É devolver essas águas ao campo de visão do país — na escola, na universidade, no debate público, na conversa de quem nunca subiu numa embarcação — até que o rio deixe de ser o quintal escondido e volte a ser, como nas grandes cidades ribeirinhas do mundo, a frente que se mostra.


É esse o convite que a Fenavega faz. Não como quem aponta culpados, mas como quem propõe um novo jeito de olhar. Porque a conta é sempre a mesma, e vale para a estrada e para o rio: aquilo que a sociedade enxerga, a sociedade protege. Vai chegar o dia em que o rio terá a mesma plateia que a estrada, e em que a criança que hoje aprende apenas onde ele nasce e deságua aprenderá também a cuidar das suas margens. Nesse dia teremos entendido, enfim, que um país não cuida do que não enxerga — mas que, quando aprende a enxergar, aprende também a cuidar.


Raimundo Holanda C Filho, presidente da Federação Nacional das Empresas de Navegação Aquaviária (Fenavega).

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