A Cofco International realizou, em 20 de agosto, o primeiro embarque de sorgo brasileiro em grande escala com destino à China: 69 mil toneladas do cereal partiram do Terminal Export Cofco (TEC), na área do STS-11, no Porto de Santos, a bordo do navio graneleiro Guoyuan 26. A carga recebeu a liberação fitossanitária final do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) antes de zarpar rumo ao porto de Nansha, em Guangzhou, viagem que deve levar cerca de 45 dias e cujo produto será distribuído pela Cofco Trading no mercado chinês. Em declaração à Reuters, Luiz Noto, CEO da divisão de Grãos e Oleaginosas da Cofco no Brasil, destacou que a abertura desse mercado amplia as opções comerciais dos produtores brasileiros e conecta a produção nacional a um comprador de peso na Ásia. A operação marca a passagem do sorgo brasileiro de teste comercial para escala de carga a granel, colocando o país no radar de um dos maiores compradores globais do cereal.

O tamanho da oportunidade está ligado à forma como a China administra seu abastecimento de grãos: o país importa entre 5,5 milhões e 10 milhões de toneladas de sorgo por ano, segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Diferentemente do milho, o sorgo não está sujeito ao sistema de cotas tarifárias (TRQ) aplicado pelo governo chinês, o que permite às fábricas de ração recorrer ao cereal importado sempre que sua relação de preço com o milho tornar a substituição vantajosa. Com valor energético próximo ao do milho, o sorgo é usado principalmente na alimentação de suínos e aves, funcionando como instrumento de ajuste de custos para a indústria chinesa de nutrição animal, uma das maiores do mundo.
A entrada do Brasil nesse mercado tem relação direta com a guerra comercial entre Estados Unidos e China. Em março de 2025, Pequim impôs uma tarifa retaliatória de 10% sobre o sorgo americano, dentro de um pacote mais amplo de sobretaxas a produtos agrícolas dos EUA em resposta ao tarifaço do governo Trump. O resultado foi drástico: as exportações de sorgo dos Estados Unidos para a China caíram mais de 95% no primeiro semestre de 2025, segundo levantamento do Texas A&M Agricultural and Food Policy Center. Austrália e Argentina foram os primeiros a ocupar parte do espaço aberto, mas o Brasil já vinha se preparando havia mais tempo: o protocolo fitossanitário que autoriza a exportação de sorgo brasileiro para a China foi assinado pelos dois países em novembro de 2024, com liberação comercial efetivada ao longo de 2025 — movimento que, somado às tensões entre Washington e Pequim, tornou o país sul-americano uma alternativa natural aos fornecedores americanos.
Mesmo cultivando sorgo internamente, a China depende de importações porque sua produção doméstica — entre 3 milhões e 3,5 milhões de toneladas por ano, segundo o USDA e a Administração Geral de Alfândegas do país (GACC) — é consumida majoritariamente pela indústria de baijiu, o destilado tradicional chinês. As variedades usadas pelas destilarias, entre elas a Kweichow Moutai, têm maior concentração de taninos, característica associada ao processo de fermentação do licor, o que as torna pouco adequadas à fabricação de ração. Essa divisão de uso deixa o setor de nutrição animal chinês estruturalmente dependente do produto estrangeiro, e é justamente essa lacuna que o sorgo brasileiro passa a disputar com fornecedores tradicionais como Estados Unidos, Austrália e Argentina.
O embarque também expõe a estrutura que a Cofco vem montando no Porto de Santos: a empresa investiu R$ 2,84 bilhões na construção do TEC e da logística associada ao STS-11, terminal que deve elevar sua capacidade de movimentação no porto de 4,5 milhões para 14 milhões de toneladas anuais. O movimento sucede um primeiro teste, em janeiro de 2026, quando o Brasil enviou à China sua primeira remessa de sorgo desde 2014 — um volume equivalente a um único contêiner. Segundo a Cofco, novas cargas do cereal já constam na programação de navios para os próximos meses. Para o produtor brasileiro, o novo destino valoriza uma cultura com boa tolerância ao déficit hídrico, capaz de ocupar janelas agrícolas em que outras culturas encontram mais restrições — mas a consolidação desse mercado ainda vai depender da continuidade dos embarques, dos preços praticados e da capacidade da cadeia nacional de sustentar volumes compatíveis com a demanda chinesa.