Barco popular: a estrada de águas também merece um Uno Mille

Na Amazônia, os rios são as únicas estradas que milhões de famílias conhecem. É por elas que chega o alimento, a escola, o atendimento de saúde e a renda do mês. E é nelas que está, também, a maior oportunidade de transformar a vida ribeirinha — se o Brasil decidir oferecer a quem vive das águas uma embarcação à altura do nosso tempo.

As dimensões dessas estradas de águas são colossais. A ANTAQ — Agência Nacional de Transportes Aquaviários — registra que, a cada ano, milhões de passageiros e dezenas de milhões de toneladas de carga circulam pela Amazônia Legal. Só nos pontos de fiscalização de Manaus, a Arsepam — Agência Reguladora dos Serviços Públicos Delegados e Contratados do Estado do Amazonas — contabilizou centenas de milhares de pessoas no transporte hidroviário intermunicipal em um único ano recente. É uma malha viária inteira funcionando sobre a água — e o que falta a ela não é movimento, é uma frota à altura do seu tamanho. Hoje, boa parte das viagens ainda se faz em embarcações de madeira construídas de forma artesanal, sem padrão estrutural, dividindo o mesmo casco entre passageiros e carga. A própria engenharia naval já aponta o caminho de saída: substituir gradualmente esses barcos por modelos mais seguros, com reforço estrutural. O futuro do transporte ribeirinho passa por essa virada.

E é aqui que a história brasileira oferece uma lição que vale revisitar. Em 1993, no governo Itamar Franco, o país enfrentou um impasse parecido em outro terreno: o automóvel era artigo de poucos. A resposta não veio do mercado puro nem da caridade, mas de um pacto. Pelas chamadas câmaras setoriais, Estado, montadoras e trabalhadores costuraram a redução do IPI sobre os carros de motor 1.0 e criaram a categoria do carro popular. O Fiat Uno Mille virou símbolo de uma época, a Volkswagen relançou o Fusca, e o efeito foi histórico — o automóvel desceu para o orçamento da família média, a indústria girou e o emprego veio junto. Foi desoneração com escala, e a escala é o que torna o caro acessível.

A pergunta que a Federação Nacional das Empresas de Navegação Aquaviária propõe ao país é direta: por que não fazer pela família ribeirinha o que se fez pela família urbana? Um barco popular — padronizado, seguro e ao alcance de quem vive das águas — é o utilitário que falta na maior estrada do Brasil.

O desenho é simples, e cada escolha tem sua razão. A capacidade de quatro a seis toneladas é o ponto de equilíbrio que faltava: comporta a produção da comunidade — o açaí, a farinha, o pescado, a fruta — e leva a família com segurança, sem o velho improviso de misturar gente e carga no mesmo porão. O casco em aço ou alumínio naval é o que dá solidez a esse propósito: estrutura projetada, flutuabilidade calculada e uma durabilidade que o barco de madeira nunca teve. Por ser feito de insumo industrial, abre caminho para a linha de montagem, o padrão e a escala que barateiam, tal como o motor 1.0 barateou o carro. A motorização de baixo consumo reduz a conta do diesel, hoje o maior peso no bolso do ribeirinho. E a energia solar a bordo cumpre um papel próprio e silencioso: alimenta a refrigeração que conserva o pescado, mantém acesas as luzes de navegação e garante a comunicação — autonomia que, no rio, é ao mesmo tempo segurança e renda.

Para a comunidade ribeirinha, um barco assim é mais do que um meio de transporte: é instrumento de trabalho e de dignidade. É a colheita que chega ao mercado sem se perder no caminho, a criança que alcança a escola, o doente que chega a tempo ao posto de saúde, o pequeno produtor que deixa de depender de frete alheio para escoar o que cultiva. É, numa palavra, a mesma autonomia que o automóvel deu à família urbana — agora ao alcance de quem faz do rio o seu chão.

Há, porém, uma dimensão dessa proposta que ultrapassa as margens dos rios e fala ao mundo inteiro. A Amazônia é hoje o centro das atenções do planeta, e existe uma verdade pouco lembrada nesse debate: a frota que sustenta a região cobra um preço silencioso à floresta. São milhares de embarcações de madeira navegando por esses rios, e o impacto não termina no dia em que o barco é construído. Cada reparo recomeça o ciclo — para repor algumas tábuas deterioradas, derruba-se às vezes uma árvore inteira, da qual se aproveita pouco e se abandona o resto. Multiplicado por milhares de cascos, ano após ano, esse desperdício se converte numa sangria difusa: um desmatamento que não vem em manchete, não aparece como foco de queimada, mas drena a floresta tábua a tábua, reparo a reparo. Um casco de aço ou alumínio naval rompe esse ciclo de uma só vez — dura décadas, conserta-se com solda e peça padronizada, e nunca mais exige que uma árvore caia para mantê-lo flutuando. Preservar a floresta e servir a quem nela vive deixam de ser escolhas opostas e passam a ser a mesma decisão.

Nada disso será real sem o pacto que o tornou possível em 1993. A proposta da Fenavega é a constituição de uma câmara setorial do barco popular, reunindo o Ministério de Portos e Aeroportos, a Marinha do Brasil, o BNDES, a Sudam e o Banco da Amazônia, com o Fundo Constitucional do Norte como fonte natural de financiamento, ao lado dos estaleiros regionais, da academia e das entidades do setor. O caminho técnico já existe: crédito acessível e alívio tributário para baratear a embarcação, certificação da Marinha como selo de segurança, e articulação com a formação profissional que o Norte já começa a estruturar, a exemplo do projeto de lei que cria a Escola de Aquaviários do Amazonas. E há um cuidado que a federação faz questão de sublinhar: o carpinteiro naval não será deixado para trás, mas requalificado — o programa precisa de quem construa e quem conserte, e esse saber é patrimônio da região.

O Brasil sabe transformar uma boa política em mobilidade para milhões. Já o fez nas estradas de asfalto. Pode fazê-lo, agora, nas estradas de águas que sustentam a Amazônia. Diante dos olhos do mundo, voltados para o destino da maior floresta do planeta, um barco popular reúne numa única embarcação três compromissos que o país costuma tratar como concorrentes: desenvolvimento para quem produz, segurança para quem viaja e floresta em pé para todos. A Fenavega coloca a proposta na mesa e convoca o pacto.

Raimundo Holanda C Filho, presidente da Federação Nacional das Empresas de Navegação Aquaviária (Fenavega).

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