Novo relatório do Ministério da Agricultura chinês aponta demanda mais forte que o esperado e margens de esmagamento mais favoráveis, cenário que mantém pressão positiva sobre os portos brasileiros

O Ministério da Agricultura da China elevou, em seu relatório mensal do CASDE divulgado em setembro, a estimativa de importação de soja para a safra 2025/26 (outubro de 2025 a setembro de 2026) para 108 milhões de toneladas, um aumento de 4,7 milhões de toneladas em relação à projeção de agosto. Segundo a pasta chinesa, a revisão reflete uma demanda por importações acima do esperado e a melhora nas margens de esmagamento das indústrias de óleo, que voltaram a operar com maior rentabilidade nos últimos meses. Mesmo com o ajuste para cima, o volume projetado ainda fica abaixo das 109,37 milhões de toneladas efetivamente importadas no ciclo anterior, o que indica uma acomodação da demanda chinesa em patamar elevado, mas não recorde. Para a temporada seguinte, 2026/27, o órgão manteve a projeção estável em 95,5 milhões de toneladas, sinalizando que o mercado não espera, por ora, uma nova escalada nas compras externas do país.
O mesmo relatório trouxe atualizações para o milho. A China revisou a expectativa de importações do cereal para a safra 2025/26, citando condições climáticas favoráveis nas principais regiões produtoras do país, que registraram boa insolação e umidade do solo adequada ao longo de agosto. O órgão avalia que o desenvolvimento das lavouras foi normal ou ligeiramente superior à média, com expectativa de um clima ameno a mais quente em setembro no nordeste chinês e chegada das primeiras geadas dentro do prazo esperado ou com leve atraso — cenário favorável à maturação dos grãos. Para 2026/27, a estimativa de importações de milho pela China permanece em 6 milhões de toneladas, volume modesto se comparado à soja, mas que ainda assim posiciona o país como comprador relevante no mercado internacional de cereais.
O apetite chinês por soja segue tendo o Brasil como fornecedor central. Levantamento da Secex mostra que, nos doze meses encerrados em agosto de 2026, os exportadores brasileiros embarcaram 114,44 milhões de toneladas de soja em grão, gerando receita de US$ 48,73 bilhões — dos quais 73,7% vieram diretamente de compras chinesas, tanto em volume quanto em valor. A posição consolidada do Brasil como principal fornecedor de proteína vegetal para a China se firmou desde a guerra tarifária de 2018 e ganhou contornos ainda mais estruturais nos últimos anos. Mesmo após a trégua comercial entre Pequim e Washington, que previu a retomada de compras norte-americanas de até 25 milhões de toneladas anuais entre 2026 e 2028, analistas do setor apontam que a grande safra brasileira mantém o produto nacional mais competitivo em preço, o que deve sustentar a preferência chinesa pela origem sul-americana ao menos até a entrada da nova safra dos Estados Unidos no mercado.
Esse fluxo recorde de exportações tem impacto direto sobre a infraestrutura portuária nacional. Dados da Companhia Nacional de Abastecimento mostram que, entre janeiro e julho de 2026, os portos do Arco Norte responderam por 39,03% dos embarques de soja do país, com destaque para Barcarena e Santarém, no Pará, que mais que dobraram volumes na comparação com o ano anterior. O Porto de Santos, ainda assim, permanece como o principal canal de escoamento da oleaginosa, com 35,74% de participação no período, seguido por Paranaguá, que ampliou sua fatia de 11,9% para 13,1%. A expansão dos corredores logísticos do Norte tem ajudado a reduzir distâncias e custos de transporte da produção do Centro-Oeste, embora o setor continue apontando a exposição das hidrovias amazônicas — como Madeira, Tapajós e Solimões — a eventos climáticos extremos como um desafio estrutural para a consistência desse escoamento em anos de seca mais severa.
O apetite chinês por grãos brasileiros tende a permanecer robusto também na virada de safra. Relatório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, publicado em 8 de setembro, projeta que as importações chinesas de soja no ano comercial 2026/27 — que começa em 1º de outubro — somem 108 milhões de toneladas, ante 112,6 milhões na temporada anterior, mesmo com a produção doméstica chinesa avançando ligeiramente, para 20,1 milhões de toneladas. A combinação entre demanda firme, plantel de suínos e aves ainda aquecido e capacidade limitada de autoabastecimento da China deve manter o país dependente de grandes volumes vindos da América do Sul. Para os portos brasileiros, isso significa a continuidade de um ciclo de investimentos e recordes de movimentação que já vem redesenhando o mapa logístico do agronegócio nacional, com o Arco Norte ganhando espaço sem tirar de Santos o posto de principal porta de saída da soja brasileira.