Embarques do país asiático somam 74,11 milhões de toneladas entre janeiro e agosto, alta de 1,1% no ano, em meio à véspera da visita de Xi Jinping aos EUA

As importações chinesas de soja recuaram 1,1% em agosto na comparação anual, mas o acumulado do ano segue em alta, segundo dados alfandegários divulgados pela China nesta terça-feira (8). O país, maior comprador mundial da oleaginosa, adquiriu 12,14 milhões de toneladas no mês passado, ante 12,28 milhões em agosto de 2025 — porém 5,7% acima do volume importado em julho. No acumulado de janeiro a agosto, as compras chinesas somaram 74,11 milhões de toneladas, um avanço de 1,1% sobre as 73,33 milhões de toneladas do mesmo período do ano anterior. Segundo Liu Jinlu, pesquisadora da Guoyuan Futures, o resultado reflete a combinação entre a colheita recorde do Brasil, a eficiência da logística portuária brasileira e a demanda doméstica chinesa por farelo de soja, sustentada pela manutenção dos plantéis de suínos e aves em escala relevante.
O desempenho chinês está diretamente ligado ao tamanho da safra brasileira 2025/26, que a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta em 180,6 milhões de toneladas de soja — novo recorde histórico e crescimento de 5,3% sobre o ciclo anterior. Com a colheita praticamente concluída, a Conab também elevou a previsão de exportações do grão para uma marca inédita de 116,3 milhões de toneladas em 2026, ante 108,2 milhões no ciclo passado. O volume adicional tem sido escoado com apoio de terminais portuários que ampliaram capacidade ao longo do ano, casos do Terminal Export Cofco (TEC), em Santos, que já opera com 12 milhões de toneladas/ano na primeira fase e deve chegar a 14,5 milhões até outubro, e do novo TUP da Bunge em São Francisco do Sul (SC), habilitado nesta semana pela Antaq para tráfego internacional. Dados da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec) mostram que os embarques de soja devem somar 7,74 milhões de toneladas somente em setembro, puxados pela demanda firme da China e por prêmios mais atrativos no Porto de Paranaguá.
O pano de fundo político-comercial também ajuda a explicar o comportamento das compras chinesas. Está marcada para 24 de setembro, em Washington, a visita do presidente Xi Jinping aos Estados Unidos, num encontro que deve tratar da extensão da trégua tarifária firmada entre os dois países no fim de 2025. Segundo o representante comercial americano, Jamieson Greer, ambos os governos devem anunciar medidas sobre agricultura e barreiras não tarifárias durante a cúpula. Processadoras privadas chinesas de soja, pressionadas por margens reduzidas e pela tarifa de 10% ainda em vigor sobre produtos agrícolas americanos, aguardam sinalização de alívio tarifário que amplie o acesso à soja dos Estados Unidos justamente no período em que a oferta sul-americana se aproxima do fim da safra. Estima-se que compradores estatais chineses já tenham adquirido mais de 11 milhões de toneladas da soja americana desde o encontro de maio entre os dois líderes, que manteve o compromisso de importações anuais de 25 milhões de toneladas dos EUA até 2028.
Apesar do fôlego recente, analistas ouvidos pela Reuters projetam estabilidade ou leve retração nas importações chinesas totais de 2026 frente ao recorde de 111,83 milhões de toneladas do ano passado. Rosa Wang, da Shanghai JC Intelligence, estima que as chegadas de soja na China somem cerca de 35 milhões de toneladas entre agosto e novembro, com desaceleração mês a mês no quarto trimestre — movimento sazonal típico do período. Já Liu Jinlu chama atenção para a redução gradual do plantel de matrizes suínas no país, fator que deve conter o crescimento da demanda por ração à base de farelo de soja nos últimos meses do ano. A Argentina, que ampliou fortemente sua participação nas compras chinesas em 2025 após suspender temporariamente impostos de exportação, também é apontada como concorrente relevante, ainda que sem repetir o mesmo impulso em 2026 na ausência de incentivos semelhantes.
Para o setor portuário e de navegação brasileiro, o episódio reforça um padrão que vem se consolidando nos últimos ciclos: mesmo diante de oscilações mensais nas compras chinesas, a combinação entre volume recorde de produção e infraestrutura logística mais eficiente tem sustentado a posição do Brasil como fornecedor estruturalmente relevante para o principal mercado importador do mundo. Os investimentos em terminais graneleiros, a ampliação de capacidade em Santos e a entrada em operação de novos ativos como o de São Francisco do Sul mostram que a competitividade brasileira no comércio internacional de soja depende tanto do desempenho da lavoura quanto da capacidade dos portos de escoar picos de demanda com previsibilidade. Com a cúpula entre Xi Jinping e Donald Trump se aproximando e o quarto trimestre historicamente mais lento para as importações chinesas, o desempenho da logística portuária brasileira deve seguir como variável central para determinar se o país conseguirá manter, também em 2027, o ritmo de crescimento observado neste ano.