Autoridade do canal aponta melhora nos reservatórios após meses de chuva abaixo da média, mas mantém restrição de tráfego que já elevou custos e prazos da navegação internacional

A Autoridade do Canal do Panamá (ACP) adiou por tempo indeterminado o corte no calado máximo autorizado para navios do tipo neopanamax, que estava previsto para entrar em vigor em 1º de outubro. Em vez de reduzir o limite dos atuais 48 pés (14,63 metros) para 47,5 pés (14,48 metros), a autoridade decidiu manter a profundidade permitida após observar uma recuperação parcial nos níveis dos reservatórios que abastecem as eclusas. O lago Gatún, principal reservatório do sistema, estava em cerca de 25,6 metros na manhã de 5 de setembro — ainda 1,5 metro abaixo do teto de capacidade máxima, de 27,1 metros —, depois de ter recuado a 25,5 metros em 26 de agosto e se recuperado nos dias seguintes. O lago Alhajuela, segundo reservatório do sistema, seguia 3,8 metros abaixo do nível considerado favorável. Entre maio e agosto, o volume acumulado de chuvas na bacia hidrográfica do canal ficou 34% abaixo da média histórica, com vazões 44% inferiores ao normal, segundo dados da própria ACP.
Apesar do respiro no calado, a autoridade manteve o corte no número de travessias diárias permitidas — uma medida que impacta diretamente a capacidade de escoamento da via. A partir de 4 de setembro, o limite recuou de 36 para 34 passagens por dia, e deve cair ainda mais, para 32 travessias diárias, a partir de 15 de setembro, com um teto de apenas nove passagens para navios neopanamax, a categoria de maior porte que utiliza as eclusas ampliadas. A ACP afirmou que vai “notificar oportunamente qualquer ajuste futuro” com base no comportamento dos lagos e nas previsões climáticas para a bacia, sinalizando que a situação segue monitorada e pode mudar rapidamente para melhor ou para pior.
A escassez de vagas já produz efeitos concretos nos custos de operação. Em agosto, a operadora de gás liquefeito SK Gas pagou US$ 5,3 milhões por uma passagem garantida para um navio transportador de GLP — valor recorde no leilão de prioridade de travessia que o canal realiza para embarcações dispostas a furar a fila. Já as embarcações sem reserva prévia enfrentaram esperas de cerca de 11 dias para atravessar. Esse tipo de custo extra tende a ser repassado ao longo da cadeia logística, encarecendo o transporte de granéis, contêineres e gás natural liquefeito que dependem da rota entre o Atlântico e o Pacífico.
O episódio reacende uma discussão que já é familiar ao setor de navegação: a vulnerabilidade climática de vias aquáticas estratégicas para o comércio internacional. O Canal do Panamá é responsável por cerca de 6% de todo o comércio marítimo mundial e recebe, em condições normais, mais de 14 mil navios por ano, conectando a costa leste dos Estados Unidos ao mercado asiático — rota usada intensamente para o escoamento de grãos norte-americanos. Na crise anterior, entre 2023 e 2024, motivada pelo fenômeno El Niño, as travessias diárias chegaram a cair para 24 — bem abaixo do patamar normal de 38 — e a Autoridade do Canal projetou perdas de receita entre US$ 500 milhões e US$ 700 milhões para 2024. O cenário atual, embora menos severo, mostra que o canal continua operando com margem reduzida e que qualquer nova estiagem prolongada pode reproduzir gargalos semelhantes.
Para o setor de navegação e comércio exterior, o episódio funciona como um lembrete de que a infraestrutura hidroviária internacional está cada vez mais exposta à variabilidade climática — um desafio que não é exclusivo do Panamá e que também aparece, em outra escala, nas discussões brasileiras sobre navegabilidade de rios e portos. Embarcadores e companhias de navegação que dependem da rota entre os oceanos Atlântico e Pacífico devem monitorar de perto os próximos boletins da ACP, já que uma nova piora nos reservatórios pode significar não apenas menos vagas diárias, mas também o retorno das restrições de calado — o que aumentaria ainda mais os custos e os prazos de uma das artérias mais importantes do comércio marítimo global.