Rio Negro entra em setembro decisivo com risco de uma das três maiores secas já registradas

Nível do rio em Manaus caiu para 23,94 metros nesta semana, e pesquisadores do SGB e do Inpa projetam mínimas entre 13 e 16 metros — cenário que reacende a disputa sobre a taxa da seca cobrada pelas armadoras

O Rio Negro entrou em setembro sob risco de registrar, em 2026, uma das três vazantes mais severas de sua série histórica. Segundo o Serviço Geológico do Brasil (SGB) e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), o nível do rio em Manaus pode oscilar entre 13 e 16 metros nos próximos meses, dependendo do ritmo de queda das águas. Pela medição do Porto de Manaus, agosto terminou em 24,19 metros — ainda 2,58 metros acima do mesmo período de 2025 e 4,17 metros acima de 31 de agosto de 2024, ano da maior seca já registrada na região. Mas a folga vem encolhendo rápido: nos dois primeiros dias de setembro, o rio já recuou 15 centímetros, chegando a 23,94 metros.

Os pesquisadores apontam que a curva de queda observada em agosto se assemelha à de 2023, ano que também antecedeu um período de estiagem severa, e classificam os primeiros quinze dias de setembro como decisivos para definir a real intensidade da vazante. No cenário mais crítico avaliado pelo SGB, o rio poderia chegar a 12,92 metros — próximo do recorde negativo de 12,66 metros, atingido em 4 de outubro de 2024. Mesmo nas projeções mais otimistas, a expectativa é de que 2026 figure entre as secas mais intensas já monitoradas no Rio Negro. Soma-se a isso o alerta sobre o El Niño, cujo aquecimento das águas do Pacífico pode reduzir a formação de chuvas na Bacia Amazônica até março de 2027 — o que ameaça comprometer a recuperação dos níveis também no próximo ciclo.

Os efeitos da estiagem já são sentidos no interior do Amazonas: os municípios de Benjamin Constant e São Paulo de Olivença, na calha do Alto Solimões, decretaram situação de emergência diante da queda acentuada dos rios. A vazante compromete o transporte fluvial — meio de locomoção essencial para boa parte da população ribeirinha —, dificulta o abastecimento de comunidades isoladas e reduz o calado navegável em diversos trechos, obrigando embarcações a operar com carga e velocidade reduzidas para evitar encalhes.

O cenário hidrológico é também o centro de uma disputa comercial que já mobiliza a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ). A agência fixou em 17,7 metros, medidos no Rio Negro, o parâmetro que autoriza a cobrança da chamada taxa da seca — sobretaxa aplicada por armadoras internacionais para compensar custos extras de operação em período de estiagem. Ainda assim, empresas como MSC, CMA CGM e Maersk já comunicaram a cobrança a partir de setembro, com valores que chegam a US$ 1,9 mil por contêiner com destino a Manaus. A Associação Comercial do Amazonas (ACA) contesta as cobranças na própria ANTAQ, argumentando que o parâmetro oficial ainda não foi atingido — o rio segue, por ora, quase seis metros acima do piso regulatório. Diante da pressão, a ANTAQ informou, em agosto, que reforçaria as ações operacionais de monitoramento e a exigência de comunicação prévia às empresas de navegação durante o período de seca.

Com a intensidade da vazante ainda em definição, o desfecho das próximas duas semanas deve pautar tanto a operação portuária quanto o debate regulatório na Amazônia. Órgãos como a Marinha do Brasil, a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e o Ministério de Portos e Aeroportos já sinalizaram reforço no monitoramento hidrológico da região, incluindo o lançamento de um painel de acompanhamento em tempo real dos níveis dos rios amazônicos. Para o setor de navegação interior, o momento reforça a necessidade de decisões rápidas e coordenadas entre poder público e armadores, de forma a equilibrar a segurança da navegação, a previsibilidade de custos para o comércio e a manutenção do abastecimento das populações da região Norte.

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