Projeção da Abac confirma a resiliência do transporte marítimo pela costa brasileira, mas a estiagem nos rios do Norte eleva custos e reforça a cobrança por dragagem e previsibilidade

A cabotagem brasileira deve encerrar 2026 com crescimento em torno de 10%, segundo projeção da Associação Brasileira dos Armadores de Cabotagem (Abac) divulgada em 5 de outubro. A estimativa já considera os efeitos dos eventos climáticos do ano, em especial a seca que reduz o nível dos rios amazônicos e dificulta o acesso dos navios a Manaus. O percentual fica abaixo do ritmo excepcional de 2025, quando as empresas associadas à entidade registraram alta de 23,6% na movimentação de contêineres em relação a 2024, com destaque para o segmento feeder, que avançou mais de 31%. Ainda assim, a projeção confirma que o transporte de cargas pela costa segue entre os segmentos mais dinâmicos da logística nacional, num momento em que cada vez mais empresas trocam parte do transporte rodoviário por rotas marítimas nas longas distâncias.
Os números do primeiro semestre ajudam a explicar o cenário. Depois de um início de ano mais fraco, a cabotagem reagiu no segundo trimestre: entre abril e junho, a movimentação somou 462.713 TEUs, entre cargas domésticas e feeder, alta de 5,6% sobre os 438.365 TEUs do mesmo período de 2025. As cargas domésticas chegaram a 224.627 TEUs, contra 215.642 TEUs um ano antes, enquanto o feeder, serviço que conecta os portos brasileiros às rotas internacionais, alcançou 238.086 TEUs, ante 222.723 TEUs. No acumulado de janeiro a junho, foram 978.261 TEUs, superando os 935.057 TEUs do primeiro semestre do ano passado. Considerando todas as operações das associadas da Abac, o crescimento foi de 9,5% no segundo trimestre e de 4,5% no semestre. Para o diretor-executivo da entidade, Luis Fernando Resano, os resultados mostram o aumento constante da demanda pelo modal e a disposição das empresas em atender os usuários.
O principal freio no horizonte é a estiagem na Região Norte. Um estudo da A&M Infra, braço da consultoria Alvarez & Marsal, elaborado para a Abac, estima que a seca pode encarecer em até 150% o frete de contêineres com destino a Manaus. Com uma limitação de 2 metros na profundidade disponível, a capacidade dos navios recua 35% e o custo por unidade sobe 63%; em um cenário mais grave, com corte de 3,2 metros, a capacidade cai 55%. Isso acontece porque, mesmo transportando menos carga, a maior parte dos custos da viagem permanece, somando-se a atrasos, cancelamentos de escalas e armazenagem adicional. O precedente preocupa: em outubro de 2023, a baixa profundidade impediu a passagem de embarcações por semanas, e o volume de contêineres movimentado em Manaus caiu 85% em relação a agosto daquele ano. Resano defende atacar as causas do problema, e não apenas adotar medidas paliativas, e avalia que a concessão de hidrovias pode trazer mais previsibilidade às dragagens. Ainda no primeiro semestre, ele apontou a passagem do Tabocal e a enseada do Madeira como os trechos mais críticos para quem navega até Manaus e defendeu que as dragagens ocorram em agosto, antes do auge da seca, em outubro.
No longo prazo, a tendência de expansão é consistente. Segundo o secretário nacional de Hidrovias e Navegação, Otto Burlier, o transporte de contêineres por cabotagem cresceu em média 10,9% ao ano entre 2010 e 2025, ritmo que se intensificou para 14,2% ao ano entre 2023 e 2025. Os dados oficiais da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) mostram que a cabotagem movimentou 303,7 milhões de toneladas em 2025, alta de 3,4%, e 4,8 milhões de TEUs. Parte desse avanço é atribuída à Lei nº 14.301/2022, conhecida como BR do Mar, que flexibilizou o afretamento de navios estrangeiros por Empresas Brasileiras de Navegação. Segundo a Abac, desde a implementação da lei, quatro novas empresas entraram no mercado e 16 embarcações foram incorporadas à frota nacional, ampliando em 18% a capacidade total de transporte. Para o governo, o desempenho futuro dependerá da atividade econômica, da oferta de serviços regulares, da infraestrutura portuária, da disponibilidade de navios e dos custos do transporte.
Apesar do crescimento, a cabotagem ainda ocupa uma fatia pequena da matriz brasileira. De acordo com Roberto Duque, executivo da Aliança, o transporte de contêineres pela costa responde por cerca de 4% da matriz de transportes, enquanto em países desenvolvidos o transporte marítimo doméstico supera 35%. A companhia, que cresceu 12% no ano passado, também enxerga o mercado próximo de 10% em 2026 e espera voltar aos dois dígitos em 2027. Para que esse potencial se concretize em um país com cerca de 8 mil quilômetros de litoral, o setor aponta desafios como a modernização da infraestrutura portuária, a redução da burocracia, ainda marcada pela multiplicidade de órgãos fiscalizadores, e investimentos em acessos e terminais intermodais. A Abac também alerta para o risco de novas exigências às embarcações afretadas, que poderiam reduzir a competitividade do modal e devolver cargas às rodovias. A projeção de 10% mostra que a cabotagem resiste a um ano adverso, mas a velocidade do crescimento daqui para a frente dependerá de respostas estruturais, da dragagem dos rios à estabilidade regulatória.