Arco Norte se firma como principal rota do agronegócio brasileiro

Anuário da Conab mostra que portos acima do paralelo 16°S já respondem por quase 40% das exportações de soja e milho e se tornaram a maior porta de entrada de fertilizantes no país

O Arco Norte consolidou de forma definitiva sua posição como o eixo logístico mais estratégico do agronegócio brasileiro. É o que revela o Anuário Agrologístico 2026, divulgado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), que mostra os portos localizados acima do paralelo 16° Sul respondendo por 39,5% de todas as exportações nacionais de soja e milho em 2025. O avanço não se limita à saída de grãos: pela primeira vez, a região também superou Paranaguá como principal porta de entrada de fertilizantes no país, com 13,36 milhões de toneladas internalizadas contra 10,89 milhões desembarcadas no porto paranaense. Segundo a Conab, o movimento reflete uma década de deslocamento do eixo logístico do Sul para o Centro-Norte do Brasil, impulsionado por investimentos públicos que aproximaram as regiões produtoras dos portos amazônicos e maranhenses.

No caso da soja, as exportações brasileiras somaram 108,18 milhões de toneladas em 2025, alta de 9,48% sobre o ano anterior, com 36,2% do volume escoado pelos portos do Arco Norte — à frente de Santos, com 32%, e Paranaguá, com 13,4%. O Mato Grosso permaneceu como maior exportador do país, com 32,06 milhões de toneladas, seguido por Goiás, Paraná, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul. A China seguiu como principal destino da oleaginosa brasileira, absorvendo cerca de 78,9% de todo o volume vendido ao exterior. O desempenho reforça a importância crescente de terminais como o Porto de Itaqui, no Maranhão, que ampliou sua movimentação de grãos de 11,55 milhões de toneladas em 2021 para 20,14 milhões em 2025 — crescimento de 74% em apenas quatro anos.

O milho seguiu trajetória semelhante, ainda que mais moderada: as exportações totalizaram 40,98 milhões de toneladas em 2025, avanço de 3% frente a 2024, com o Mato Grosso concentrando 56% das vendas externas. Os portos do Arco Norte foram responsáveis por 48% desse volume, superando Santos (36,9%) e Paranaguá (10,4%). Um dado chama atenção dentro desse cenário: as exportações de milho pelo próprio Porto de Itaqui vêm recuando desde o pico de 5,57 milhões de toneladas em 2023, caindo para 1,41 milhão em 2025. A Conab atribui a queda ao aumento do consumo doméstico do cereal, puxado pela expansão das usinas de etanol de milho instaladas no Nordeste — um movimento que tem redirecionado parte da produção regional do mercado externo para a indústria de biocombustíveis.

Por trás desses números está uma mudança estrutural na matriz de transporte do agronegócio brasileiro. Entre 2010 e 2025, a participação do modal hidroviário no escoamento de grãos quase dobrou, saindo de 8% para 15%, enquanto o modal ferroviário perdeu espaço, recuando de 53% para 38% no mesmo período. Portos como Barcarena, no Pará, e Itacoatiara, no Amazonas, registraram saltos expressivos de movimentação — este último passou de 3,83 milhões de toneladas em 2021 para 11,02 milhões em 2025, alta de 188%. A Conab destaca que essa evolução só foi possível graças a investimentos combinados em rodovias, hidrovias e ferrovias, além do uso do chamado frete de retorno, estratégia logística em que embarcações levam grãos aos portos e retornam carregadas de fertilizantes, reduzindo custos operacionais para toda a cadeia produtiva.

Apesar do avanço, a consolidação do Arco Norte impõe desafios que vão além da infraestrutura. A própria Conab reconhece que a expansão logística funciona como vetor da fronteira agrícola na Amazônia, o que acende alertas sobre desmatamento, conflitos fundiários e pressão sobre territórios sensíveis da região. No campo técnico, especialistas do setor apontam que a plena consolidação do corredor ainda depende da modernização de portos interiores e da renovação da frota de embarcações, etapas consideradas mais lentas e de maior custo do que os investimentos em rodovias e ferrovias. Ainda assim, com capacidade instalada em expansão e projeções de crescimento contínuo da produção de grãos, o Arco Norte deve seguir ampliando seu papel como peça central da competitividade logística do agronegócio brasileiro nos próximos anos.

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