A Europa transformou rios modestos em destinos de bilhões de euros, movimentando centenas de barcos e milhões de visitantes por ano. O Brasil, detentor da maior bacia hidrográfica do planeta, ainda contempla de longe uma oportunidade que pode desenvolver a Amazônia sem destruí-la.

Há um contraste que diz muito sobre prioridades e visão de futuro. Na Europa, rios que cabem com folga dentro de um único afluente amazônico tornaram-se, ao longo das últimas décadas, destinos turísticos de prestígio mundial. O Sena, em Paris, o Douro, em Portugal, o Spree, em Berlim, o Tejo, em Lisboa, e os grandes corredores do Reno e do Danúbio recebem, a cada ano, milhões de visitantes a bordo de centenas de barcos de turismo, que percorrem suas margens oferecendo gastronomia, cultura, paisagem e história. O setor movimenta bilhões de euros anualmente, sustenta cadeias inteiras de hospedagem, alimentação, artesanato e serviços, e distribui renda de forma descentralizada, beneficiando não apenas as capitais, mas as pequenas cidades ao longo dos percursos. A Europa soube enxergar em seus rios aquilo que eles realmente são: ativos econômicos de altíssimo valor.
O Brasil, paradoxalmente, possui o maior patrimônio fluvial do planeta e o contempla, ainda hoje, de longe. A bacia amazônica, com seus rios de dimensões que nenhuma paisagem europeia chega perto de igualar, guarda belezas de rara grandeza: o Guaporé, em Rondônia, com suas águas que correm mansas pela fronteira; o Tapajós, no Pará, de águas claras e praias que rivalizam com as do litoral; o Rio Negro, no Amazonas, o maior rio de águas escuras do mundo; e centenas de outros rios que esperam para ser revelados ao mundo. É um patrimônio de biodiversidade sem paralelo e riqueza cultural singular que permanece à margem do mapa mundial do turismo fluvial de grande porte. O fenômeno do Encontro das Águas, o labirinto de centenas de ilhas do Arquipélago de Anavilhanas, as florestas inundadas, as comunidades ribeirinhas com sua cultura própria, a fauna que povoa o imaginário do mundo inteiro: tudo isso compõe um cenário que, em qualquer outro país, já seria celebrado como um dos grandes destinos turísticos do planeta. No Brasil, esse potencial extraordinário ainda se expressa de forma incipiente, concentrado quase exclusivamente no turismo de pesca esportiva e em iniciativas pontuais de cruzeiros de expedição.
É preciso ampliar essa visão. A Amazônia não pode ser enxergada apenas como destino de turismo de pesca. Ela tem condições de atrair o visitante internacional que deseja conhecer a maior floresta tropical do mundo a bordo de barcos confortáveis, seguros e ecologicamente responsáveis, navegando seus rios, acompanhando a vida das comunidades ribeirinhas, observando sua fauna e sua flora, e vivenciando uma das culturas mais ricas e autênticas do planeta. Esse é um modelo de turismo que se alinha às tendências mundiais mais promissoras: o turismo de experiência, o turismo sustentável, a viagem que busca imersão e autenticidade em vez de consumo apressado. O viajante contemporâneo, sobretudo o internacional, procura exatamente aquilo que a Amazônia tem de sobra e que poucos lugares no mundo podem oferecer.
O ponto decisivo é que o turismo fluvial bem estruturado é, talvez, a forma mais virtuosa de desenvolvimento que a região pode abraçar. Diferentemente das atividades que extraem recursos e deixam passivos ambientais, o turismo fluvial encontra seu maior valor justamente na floresta preservada, nos rios vivos e nas comunidades tradicionais mantidas em seu modo de vida. Ele gera emprego e renda para a população local, valoriza a cultura ribeirinha, cria oportunidades para o pequeno empreendedor, movimenta a economia regional e, ao fazê-lo, transforma a preservação ambiental em ativo econômico. A floresta em pé passa a valer mais do que a floresta derrubada. O rio limpo passa a valer mais do que o rio degradado. É o raro encontro entre desenvolvimento econômico e conservação ambiental, no qual proteger a natureza deixa de ser obstáculo ao progresso e passa a ser a própria condição dele.
A experiência europeia oferece, nesse sentido, lições valiosas, mas também revela uma vantagem brasileira ainda pouco percebida. Alguns dos rios europeus mais procurados já operam próximos do limite de sua capacidade, com espaço cada vez mais restrito para crescer. A Amazônia, ao contrário, pela escala continental de suas águas, dispõe de uma capacidade praticamente ilimitada de acolher esse tipo de turismo de forma ordenada, sustentável e distribuída ao longo de seus inúmeros corredores fluviais. O que a Europa construiu com rios pequenos e em séculos de adaptação, o Brasil tem condições de construir com rios imensos e em uma fração desse tempo, desde que o faça com planejamento, infraestrutura adequada e um marco regulatório que estimule o investimento sem comprometer o meio ambiente.
A Fenavega entende o turismo fluvial como uma das mais promissoras agendas de futuro para a navegação brasileira, e defende que o país construa, com urgência e seriedade, as condições para desenvolvê-lo. Isso requer um marco regulatório específico para as embarcações de turismo fluvial, que reconheça suas particularidades e as distinga das embarcações de carga; requer investimento em terminais, atracadouros e infraestrutura de recepção ao longo dos principais corredores; requer linhas de crédito que viabilizem a construção de barcos modernos, seguros e sustentáveis em estaleiros brasileiros; e requer a integração entre as políticas de transporte aquaviário, de turismo e de desenvolvimento regional. A Federação coloca-se à disposição para contribuir, em diálogo com os órgãos públicos, com o setor produtivo e com as comunidades amazônicas, na construção de uma agenda que transforme a vocação adormecida dos rios brasileiros em motor de desenvolvimento sustentável. A Europa mostrou ao mundo o que é possível fazer com um rio. A Amazônia guarda a oportunidade de mostrar o que é possível fazer com os maiores rios do planeta. Falta apenas decidirmos navegar nessa direção.